FRAG MENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO

FRAG MENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO
) de certeza que há pão e dança e sons e pés - fot pete kehrle lovers for love





Dois poderosos mitos fizeram-nos acreditar que o amor podia, devia sublimar-se em criação estética:


- o mito socrático ( amar serve para criar uma multidão de belos e magníficos discursos )


- e o mito romântico ( produzirei uma obra imortal escrevendo a minha paixão )



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roland barthes fragmentos de um discurso amoroso 1977













FUNAMBULISMOS:a narrativa e as formas de vida tecnológicas




"Le texte est une chose dont il faut se méfier". Alain Robbe - Grillet

"O meu desígnio é acabar com a paz na leitura, acabar com a narrativa". Rui Nunes
"It is easier to tackle the question of subjectivities with attachments than with networks". Bruno Latour


Abstract



A literatura foi, primeiro, orgânica. A escrita tornou-a linear. As formas "simples" de vida chegavam até nós através de narrativas e meta-narrativas. Hoje as formas tecnológicas de vida são demasiado rápidas para a reflexão e demasiado rápidas para a linearidade. O tempo tecnológico leva à indeterminação e ao risco permanente das bifurcações. As formas de vida estão a reconstituir-se com os laços de redes não-lineares. Que acontece à narrativa ameaçada pela não-linearidade, pela discontinuidade e pela descontextualização?
1. A linguagem serve para instituir uma ordem e uma segurança. Para conter a movência das coisas. Para autorizar a experiência. Para esconjurar o medo. Donde a noção de clausura. Donde a noção de "modelo narrativo canónico". Jacques Brès, nas suas obras sobre a narratividade mostra que é antes de mais para se construir uma visão unificada e ascendente do agir que o sujeito conta histórias e assim se constrói uma visão unificada do tempo e do devir. Rui Nunes propõe, a propósito do seu último livro, Rostos , acabar com a narrativa. "Nós não vivemos nenhuma história, vivemos bocados e perdemo-nos entre uns e outros. É talvez por isso que se escrevem histórias: para dar unidade àquilo que a não tem, para integrar o que surge desintegrado, para dar sentido ao que na verdade não tem sentido nenhum". Como pode ser isso? Abrindo a estrutura do texto? Sobrepondo blocos textuais sem continuidade narrativa? Misturar os géneros? Ensaiando continuamente, experimentando o vazio da própria escrita? O romance de Robert Musil O homem sem qualidades é simultaneamente o melhor retrato dum tempo de crise construído sobre as ruínas da filosofia, da religião e das ideologias e pela própria natureza inconclusa, pelo questionamento da vigência do género, o melhor exemplo do que será a literatura do século XXI. O romance aparece aqui como género total, para lá da ficção, da psicanálise, do ensaio, da filosofia, da crítica e da autobiografia. Por alguma razão Musil nem uma só vez é nomeado em O Canon ocidental de Harold Bloom . Também não deixa de ser interessante que Rui Nunes tenha este autor na galeria dos seus autores preferidos, à parte o facto de que a sua escrita nada conter de redentor.

2. É possível contrapor ao dispositivo "potenciométrico" da estrutura, redundante e gasto, um outro dispositivo, orgânico (Augusto Joaquim) . Os textos confrontam-nos com formas de vida próprias, permitindo pelo menos dois pontos de vista distintos: o da vibração e da ponderação - o primeiro transporta a força de coerência do vivo e a sua (trans)figuração, o segundo corresponde à estruturação da mensagem de acordo com padrões comuns, de modo a diminuir a entropia e aumentar a redundância.

3. Forma de vida é um termo associado a Wittgenstein: é o que dois grupos têm de partilhar para que as suas linguagens possam ser mutuamente compreensíveis. Uma forma de vida é um "modo de vida", um modo de fazer coisas. Uma cultura, no sentido antropológico e no sentido mais comum, é uma força de vida. Deve ser por isso que o multiculturalismo, ao promover uma pluralidade de formas de vida, é visto como uma ameaça para "the American way of life". Para Scott Lash, por exemplo, "As formas de vida abarcam simultaneamente formas de vida naturais e biológicas e formas de vida sociais e culturais" . Nunca será demais lembrar que o senso comum é prático e pragmático: reproduz-se colado às trajectórias e às experiências da vida de um dado grupo social e nessa correspondência se afirma fiável e securizante. "O senso comum é transparente e evidente. O senso comum é superficial porque desdenha das estruturas que estão para além da consciência, mas para isso mesmo é exímio em captar a profundidade horizontal das relações conscientes entre pessoas e entre pessoas e coisas. O senso comum é indisciplinar e imetódico (...) aceita o que existe tal como existe . Em semiótica, uma forma de vida existe, segundo J. Fontanille e Cl. Zilberberg, "desde que a praxis enunciativa aparece como intencional, esquematizável e estética, isto é preocupada com um plano da expressão que lhe seja próprio" . Uma forma de vida apreende-se como uma semiótica conotativa: o movimento dos actantes, a reconfiguração das figuras aparecem como típicos duma enunciação literária complexa e como uma operação de deformação coerente do dispositivo literário dominante - "potenciométrico" - convertendo-se o nosso próprio olhar em "forma de vida".







4. Temos assim que "Estrutura e entropia são duas características que exprimem aspectos contraditórios; qualquer linguagem deve equilibrar estes aspectos de modo a conseguir, por um lado, uma entropia elevada ou um conteúdo em informação elevado e, por outro, uma boa estrutura" . À primeira vista, a ideia de dinamitar a narrativa evoca um procedimento mais irónico do que real. "As palavras carregadas de mal" não se sustentam sem uma estrutura elementar simultaneamente narrativa e discursiva. A abertura da estrutura encontra-se já in nuce em Lévy-Strauss, mas ainda sob a forma da gramática transformacional: o conteúdo do mito pode variar indefinidamente, novas conexões podem sempre aparecer de tal forma que a estrutura se torna projecção, tendência, sistema virtual. Porém a sua armadura continua fixa, conservando a sua unidade, o seu centro, a sua clausura formal. O mesmo se passa, grosso modo, com Greimas. No ensaio Raça e História, publicado pela UNESCO em 1952 , Levy - Strauss contesta a necessidade e a linearidade do progresso: "O progresso não é necessário nem contínuo; processa-se por saltos ou, como diriam os biólogos, por mutações. E o resultado desses saltos nem sempre corresponde a ir mais longe na mesma direcção". A metáfora do jogo nulo serve a Lévi-Strauss para dizer que "O que ele (o jogador) ganha com um (dado) está sempre exposto a perder com o outro" e para concluir: "somente de tempos a tempos é que a história é cumulativa".

5. Mas é de facto Derrida quem vai operar o des-centramento da estrutura, já presente em La Voix et le Phénomène. O impensável tem de ser um exterior absoluto em relação à estrutura. A estrutura não tem centro. O centro é uma ficção metafísica. A estrutura tem de ser vista como um jogo infinito de diferenças, diferencialidade. O centro da estrutura está em todo a a parte e em parte nenhuma . O argumento de Derrida arranca de uma leitura renovada de Saussure. As unidades da linguagem não são positividades fixas, mas antes "restances", nós de sentido (os "capitons" de Lacan): sem limites fixos, permitem ao sistema das regras de funcionar mas também de evoluir a cada instante. O saber deixa de ser constituição para passar a ser descoberta e o sistema abre-se. A linguagem é pura "différance" e não uma positividade, excesso de signo em signo. É por isso que a iterabilidade perfeita da linguagem é impossível. O signo é sempre diferente de si mesmo. Nenhum signo é absolutamente transparente, remeterá, através da sua falta de presença, para outros signos, como Peirce, bem antes do neo-estruturalismo, mostrou. O sujeito - de fala ou destinatário - é um sujeito cindido. Derrida rompe completamente com a clausura em que se fechava a filosofia analítica. A chave de fendas desta operação é o conceito de "interpretante" - é a falha que permite o símbolo, impossível num sistema fechado, determinado (...)










[ texto de José Augusto Mourão, música Yann Tiersen




[ abril_o9






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10 comentários:

Ad astra disse...

gosto mesmo do que por aqui há

tchi disse...

Blog muito criativo e interessante.

Discurso para analisar numa perspectiva semiótica, também.

Parabéns.

E, já agora, Feliz Páscoa.

Anónimo disse...

CHEIO DE PROVOCAÇÃO,

PELA ESCRITA, ESPELHO DE TEMPOS.

A INTELIGÊNCIA DE OLHAR E

BELO DE SER VISTO, TAMBÉM.

MANUEL C

jugioli disse...

Que beleza de discurso

Uma das minhas preocupações: a escrita.

bsj

@dis-cursos.

anjo disse...

___________________________________



_______________________ muito bonito_____________________________



assim________________________



e também «««

entredentes disse...

como se tudo regressasse a nada, partido o eixo do texto, dançava, dançava...


daniel

Jade disse...

Nem tanto ao bem , nem tanto ao mal mas ao centro ...colocar a essência em cada em casulo, proporcionando pequenos desejos...

:)
Jade

P.S.: Interessante

entredentes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
entredentes disse...

(...)
regras de funcionar mas também de evoluir a cada instante. O saber deixa de ser constituição para passar a ser descoberta e o sistema abre-se. A linguagem é pura "différance" e não uma positividade, excesso de signo em signo. É por isso que a iterabilidade perfeita da linguagem é impossível. O signo é sempre diferente de si mesmo. Nenhum signo é absolutamente transparente, remeterá, através da sua falta de presença, para outros signos, como Peirce, bem antes do neo-estruturalismo, mostrou. O sujeito - de fala ou destinatário - é um sujeito cindido. Derrida rompe completamente com a clausura em que se fechava a filosofia analítica. A chave de fendas desta operação é o conceito de "interpretante" - é a falha que permite o símbolo, impossível num sistema fechado, determinado (...)

onde o inexplicável se explica, precisamente, não explicando, mas aceitanto o desbravamento único, singular ou plural dos signos.



daniel

entredentes disse...

...e a dança, essa, a integral a ideia na perfeição.

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