FRAG MENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO

FRAG MENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO
) de certeza que há pão e dança e sons e pés - fot pete kehrle lovers for love





Dois poderosos mitos fizeram-nos acreditar que o amor podia, devia sublimar-se em criação estética:


- o mito socrático ( amar serve para criar uma multidão de belos e magníficos discursos )


- e o mito romântico ( produzirei uma obra imortal escrevendo a minha paixão )



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roland barthes fragmentos de um discurso amoroso 1977









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endereço s











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10 comentários:

entredentes disse...

lamentação milésima

mdsol disse...

criativo e exposto...assim....em carne viva...
:)

~pi disse...

em carne gelada, seca e gretada, (carne quase formolizada, a a mulher seguiu os pormenores acordados e outros de memória, e sentia com força e alegria que um homem ía chegar e de repente vestiria aquele chão deserto de folhas e de festa, e depois, sem falar, a levaria a um lugar quente onde lhe aquecesse as mãos que já não sentia e lhe visse a alma - estremeceu de imaginar ver a alma dele,

mas não, não, a mulher esperou uma hora de agonia a bater os dentes, com a mochila às costas, atada a memórias dum quarto de hotel, ali, como nua numa noite desértica, olhou suplicante os prédios, subiu a passadeira, desceu, fotografou, fotogravou, começo a raspar o canivete no pulso esquerdo, perguntou não sei quê a não sei quem, olhou, a mulher sentada lá longe, teve vontade de lá ir, quem seria, mas não, era ali, ali mesmo que tinha de ficar, as instruções eram claras e ficou uma hora e a única coisa que por fim a agasalhou

foi o caminho de retorno que empreendeu sozinha, a improvisar ondes, labirintos, não havia assim tantos ondes àquela hora, e assim o corpo secou durante dois dias, torceu-se de febre até secar por onde lhe foram dando guarida, e ela fez lhe a vontade, ao corpo, e nem um dedo levantou para evitar que o desejo - qualquer desejo que fosse, se banisse para sempre dali,

porque afinal aquilo era um engano um engano ridículo delirante e seu, apenas seu, dela, e não havia ali nenhum outro corpo, ninguém nela senão ela mesma. uma obsessão, um delírio puro, uma doença, nada, ninguém. deitou fora, um a um, da janela do comboio, tudo o que levara e não lhe pertencia,as coisas do fantasma e até um brinquedo foi, um livro de criança, e chorou, chorou até lhe sair a alma pelos olhos e deixar de sentir fosse o que fosse.

até há pouco, e assim, sempre, chorou para que aprenda a desconhecer-se naquela ela mesma, é outro agora o seu rosto, irreconhecível, deitar fora pela janela também a imbecil de si, aimensa imbecil de si. e lembrou-se de quando era muito pequena e descobrira que fazia milagres, sim, mas que ninguém via ou todos fingiam que não viam, era, era a mesma, exactamente a mesma dor, a dos que são mudos e invisíveis, invisíveis veias de sangue branco de gelo e coragem e um quase beiral de alegria, mas por fim a cedência ao pânico, tudo, tudo ridículo, como quem cai num poço e se desnuda, por força das circunstâncias, em público,

tudo por enganos de palavras, muito mais longas e opacas que o necessário, obscuras no seu poder de enganar, tudo por desamor e desassossego, tudo ao contrário do que procurava, abraço e paz, tudo castigo, talvez - de quê? de quê?

(e tudo - como lhe doía o pão seco que recheara de esperança depois da tão longuíssima espera, sentida a cada milímetro - desconfiava por vezes que ele nunca veria nela mais do que uma mulher normal, tudo ainda então a parecer-lhe inútil, tudo nela a mendigar, a implorar longos pés urgentes, sete pares, sete espantos, sete léguas de botas de esquecimento

que dói, dói pele de pé descascada, doem as palavras à boca de dizer, ai e sim, sim, ela dói-se assim, substituível, ignorável, rejeitando outros navios, consumida só por si, desconhecendo a voz dele, o rosto, ela pra ele transparente, apanhar os cartões espalhados a rolar no comboio de regresso misturados com lágrimas, o ar compadecido e atarantado do revisor a tentar ajudar, a falta do bilhete, e ainda, e ainda, o habitual fio de sangue a persistir ridículo, o ridículo fiozinho - ninguém morre dum fiozinho de sangue pela boca, diz de si para si, ela,

((agora, que já quase ninguém morre sequer em veneza nem de tuberculose, nem de amor,

repete

Anónimo disse...

Se não fosse tão casual esta surpresa ficava aqui a dormir a eternidade!

observatory disse...

pois...


ok

Dalaila disse...

a luz que nos faz caminhar, nos sapatos perdidos, na saca que não largamos, nos corpos que se despem

Luís Bento disse...

...Este blog...é...é arte! Muito bom...agrada-me o conceito, o grafismo...as mensagens explícitas e as subliminares....Do Roland Barthes ao experimentalismo estético, este blog obriga a pensar...e a fruir...
Sem mais palavras...

pi&phi disse...

Quem es tu?
Um chapeu ou umha boa que tragou um elefante?

pi&phi disse...

Tes que ser o elefante si es IN-SIDE, claro.

Concha Pelayo/ AICA (de la Asociación Internacional de Críticos de Arte) disse...

no sabía que tenías este blog.

no recordaba, al menos.

creo que eres la que creo, pues conozco la historia. una historia que no te deja sosiego.

olvídala. por tu bien.

besos.

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