FRAG MENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO

FRAG MENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO
) de certeza que há pão e dança e sons e pés - fot pete kehrle lovers for love





Dois poderosos mitos fizeram-nos acreditar que o amor podia, devia sublimar-se em criação estética:


- o mito socrático ( amar serve para criar uma multidão de belos e magníficos discursos )


- e o mito romântico ( produzirei uma obra imortal escrevendo a minha paixão )



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roland barthes fragmentos de um discurso amoroso 1977
















não conheci nenhuma mulher que tenha voltado a amar a pessoa que desamou. não sabemos o mistério que nos desprende, porque não tivemos vontade que acontecesse.

ou tivemos? simplesmente aconteceu. que importa antes? lembrei-me duma frase de ´judas, o obscuro`, de thomas mann, que li quando tinha 14 anos.

ficou, e, porém, não sei reproduzi-la. soube que não pode ser crime, que o amor pode apenas não ser eterno. com 14 anos, acreditava que era eterno?

provável que sim, muito provável, por isso retive a tal frase sobre a despecaminação - do reconhecimento do final de amar, a quase descriminilização de deixar de amar, era preciso que doesse a alguém, sem dúvida, tais coisas sendo simultâneas, de certo modo, não o eram doutro, um resistia sempre, mas sim, que tudo - sendo tudo, tudo, seguisse,

aguentar resignação, raiva, impotência, medo, mutismo e permanência no mesmo lugar, isso não e porém, sim. foi o que senti muito antes de muito mais tarde, sentir na pele.



o outro indiferente. a fingir. a não -fingir já nada era mais possível fingir, apenas ir.

profundamente infelizes os dois. a murmuração. os muros. bater nas grades do vento como crianças no escuro. crianças nuas. arrastando-se. inventando desculpas para si e para o mundo.

para salvar a imagem face à família. a ceder. mais comum do que se imagina: a pais, irmãos, filhos. a vizinhos. dedos apontados no silêncio dos cemitérios. dedos.
de a toda uma estrutura montada. em uníssono.
com a força
das estruturas.
da teoria geral dos sistemas.

a ceder à ausência de autonomia interior e logo, exterior.
a morrer dia após dia. ou a sobreviver. resumidamente. a achar que talvez, a justificar justificações, a refugiar-se num futuro sem voz. irresolúvel.

iludir os dias, noites de iludir.

mas sempre sonhado. sempre sonhando. e como o sonho pode ser um animal rastejante insidioso de olhos vermelhos invertidos! e como acaba por loucamente nos projectar rumo ao ser, perto daquela primeira alegria de nos descobrirmos caminhantes em estreia de novo, de novo o coração aos saltos em ante-estreia.






agosto_08

3 comentários:

K disse...

As mulheres amam...mesmo na dor de não amar...

Rui Caetano disse...

Adorei encontrar este blogue. as palavras correm cheias de sentimentos, dores de amor e apaixonar. Coisas boas da vida.
Estou neste momento a ler um livro do Roland Barthes que se intitula "Fragmentos de um discursos amoroso". É uma obra fenomenal.

Ricardo disse...

litost...

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